quem diria, ela que antes era toda mimos agora anda estranha. a distância tornou-se irreversível. ela endureceu, suas palavras parecem secas demais para quem tomava três doses de dry martini em ocasiões especiais. ela anda vivendo de passado e de futuro, há algum tempo já. e foi assim que começou o longo caminho até a despedida. adeus grandes blocos de texto, divagações compartilhadas, adeus afagos espontâneos. "seja cortês, fria e competente, tenha boa educação, não preste muita atenção nas palavras distantes dela". paciência. ela não vai mais voltar. e eu me surpreendo comigo, por não fazer nenhuma questão que ela volte.
"Lição 1: LÓGICA (BeijaFlor)
Tua presença me transmuta.
quem sou se ao te ver
me muda o cheiro
e o corpo chia?
se respiro mais ar do que me cabe,
se sem ação
e com um sorriso teu
tudo mais não é nada mais?
se ao te ver sou outro,
sou eu que te ama?
ou este outro que forjas em mim
quando sorri é que te ama?
ou nós, eu e este outro
resultado do seu estar perto,
é que inventamos o brilho nos seus olhos
para em mim nos encontrarmos?
ah, se eu fosse eu mesmo
não me maltrataria em perguntar,
mas agora me foge a força:
você é você mesma
ou só um reflexo do meu olhar?
ah, se não for você me diga logo.
mandemos estes dois estranhos
para um outro lugar.
este que nao sou eu
adoraria estar com esta
que quem sabe se é você.
enquanto que eu, se for eu mesmo,
não vejo saida que nao seja nós.
ora, se o avesso do contrario
é sempre o mesmo,
e eu transmudado pelo desejo
que o sorriso seu me arranca
nao consigo ver senão o sorriso
que por tamanha equação
já nem sei se é seu.
seja lá como for,
seja o prazer com sua voz,
seja a dor com sua ausência,
seja vermelha ou seja branca:
mas seja a flor
e deixe que eu seja o beija-flor"
(Nadam Guerra)
não sei se eu sou quem ou o que seus olhos refletem; não sei se você é aquilo que eu acredito ver. nem sei quem é esta que me ronda - essa flor absorvente, que já está com as marcas dos seus dedos, com o sorriso moldado pelo seu gesto, esquecida da dor dos próprios espinhos. talvez conheça aquele que te acompanha, aquele que conhece a fragrância que emana do encontro de nós quatro - eu, a flor, você e o outro-resultante-do-estar-perto. na verdade, não sei se quero pensar as fórmulas. quero sentir a reação sua, que é a minha; quero perceber o chiado dos corpos, o barulho do carinho, a textura da sua mão. quero precisar o instante anterior à sua fala traduzindo meu pensamento, nossos olhares similarmente enquadrados, o seu olhar a cachoeira no meu olho.
por aquele olhar é possível orientar-se no espaço;
por aquelas mãos suspeito saber o ponto exato onde termina o corpo e começa a alma;
por aquela despedida percebo que a dor é infinitamente menor que o azedinho doce da saudade.
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