álbum de família

por geórgia

Sabia que bem no cantinho do meu caderno de poemas existe um pequenino coração vermelho com bolinhas pretas no qual imagino nossas iniciais? Era uma joaninha bisbilhoteira que descansava sobre a página em que eu escrevia um poema de amor e acabou morrendo esmagada quando, insatisfeita e irritada com a escassez de palavras doces, fechei o caderno e apertei-o contra o peito.

por onde vera caminha

Vera anda só pela cidade feia.
A tarde é quente e opaca.
Vera vê (oh, sim, ela queria poder se enganar).
Vê cortiços, portões enferrujados, varais de roupas encardidas.
Vê meninos, velhos, mães, garotas de programa.
Pais de família, malandros, agiotas e um bêbado jogado na calçada fétida.
Vera ouve.
O ronco das barrigas das crianças no barraco.
O choramingo do bebê mal nascido de uma prostituta sem leite.
O canto arrastado das lavadeiras.
Um samba triste tocando no bar da esquina.
Vera sente.
Náuseas.
Por ainda estar lúcida.
Viva.
E anda só pela cidade feia.
Mal sabe ela que sempre verá essa paisagem estúpida.

a visita

 

Tinha 99 anos.O excesso de rugas dava-lhe certa simpatia. Os olhinhos miúdos e brilhantes.Uma leve e fina penugem meio-branca-meio-lilás na cabeça.
Não por falta de insistência dos filhos e netos, vivia só. Eles a queriam como a um formoso bibelô enfeitando a mesinha da sala.
Mas ela não sairia da sua velha casa, o seu cantinho, o único lugar só dela. Nem podia: esperava uma visita ilustre.
Passava os dias cantarolando antigas marchinhas de carnaval e regando as margaridas do seu pequeno jardim. Não era raro algum vizinho surpreendê-la aos rodopios com um par imaginário no meio da sala, ao som do velho disco na vitrola.
À tardinha tomava seu banho de espuma. Vestia-se com esmero, maquiava-se toda, a cor rubra nas maçãs do rosto e nos finos lábios. Colocava o broche de camafeu (lembrança do falecido marido) na gola do vestido de seda e calçava suas sapatilhas. Então se mirava no espelho, vaidosa, os lábios desaparecendo num largo sorriso:
_Você continua um brotinho!
E saía dando gritinhos de prazer.
Sentava-se na poltrona e ficava, sem pressa, à espera do visitante. Esperava-o há algum tempo e o esperaria por toda a eternidade.
A velhinha já começava a cochilar quando alguém bateu à porta. Era ele. Um jovem ruivo, olhos claros e dentes brilhantes. Com roupa de gala. Sedutor, sussurrou no ouvido dela:
_Vem comigo...
A velhinha era toda languidez:
_Só depois de uma valsa...
Colocou o disco na vitrola e começaram a dançar. Uma lágrima teimosa escapuliu daqueles olhinhos miúdos e brilhantes. Ele era tão bonito quanto o primeiro namorado, com quem valsara nos seus quinze anos...
Os violinos anunciavam o início daquela história.
Ela assistira ao filme em preto e branco de sua vida.
Finda a valsa, ele a conduziu por um caminho repleto de margaridas, e fê-la adormecer ao som de antigas Tinha 99 anos.O excesso de rugas dava-lhe certa simpatia. Os olhinhos miúdos e brilhantes.Uma leve e fina penugem meio-branca-meio-lilás na cabeça.
Não por falta de insistência dos filhos e netos, vivia só. Eles a queriam como a um formoso bibelô enfeitando a mesinha da sala.
Mas ela não sairia da sua velha casa, o seu cantinho, o único lugar só dela. Nem podia: esperava uma visita ilustre.
Passava os dias cantarolando antigas marchinhas de carnaval e regando as margaridas do seu pequeno jardim. Não era raro algum vizinho surpreendê-la aos rodopios com um par imaginário no meio da sala, ao som do velho disco na vitrola.
À tardinha tomava seu banho de espuma. Vestia-se com esmero, maquiava-se toda, a cor rubra nas maçãs do rosto e nos finos lábios. Colocava o broche de camafeu (lembrança do falecido marido) na gola do vestido de seda e calçava suas sapatilhas. Então se mirava no espelho, vaidosa, os lábios desaparecendo num largo sorriso:
_Você continua um brotinho!
E saía dando gritinhos de prazer.
Sentava-se na poltrona e ficava, sem pressa, à espera do visitante. Esperava-o há algum tempo e o esperaria por toda a eternidade.
A velhinha já começava a cochilar quando alguém bateu à porta. Era ele. Um jovem ruivo, olhos claros e dentes brilhantes. Com roupa de gala. Sedutor, sussurrou no ouvido dela:
_Vem comigo...
A velhinha era toda languidez:
_Só depois de uma valsa...
Colocou o disco na vitrola e começaram a dançar. Uma lágrima teimosa escapuliu daqueles olhinhos miúdos e brilhantes. Ele era tão bonito quanto o primeiro namorado, com quem valsara nos seus quinze anos...
Os violinos anunciavam o início daquela história.
Ela assistira ao filme em preto e branco de sua vida.
Finda a valsa, ele a conduziu por um caminho repleto de margaridas, e fê-la adormecer ao som de antigas marchinhas de carnaval.
Ela dormiu profundamente, os lábios desaparecendo num largo sorriso.

soundtrack

I don't want to be shy
Can't stand it anymore
I just want to say "Hi"
To the one I love

Cherry Blossom Girl

I feel sick all day long
From not being with you
I just want to go out
Every night for a while

Cherry Blossom Girl

Tell me why can't it be true

I never talk to you
People say that I should
I can pray everyday
For the moment to come

Cherry Blossom Girl

I just want to be sure
When I will come to you
When the time will be gone
You will be by my side

Cherry Blossom Girl

Tell me why can't it be true

Cherry Blossom Girl

I'll never love again
Can I say that to you
Will you run away
If I try to be true

Cherry Blossom Girl

Cherry Blossom Girl
I'll always be there for you
That means no time to waste
Whenever there's a chance
Cherry blossom girl

Tell me why can't it be true

cherry blossom girl



um adendo

acho meio retardado começar um blog se apresentando...

por isso, fiquem à vontade.

72 anos de Goiânia

mais um aniversário de Goiânia...

vou sair da redação do jornal e ter que esperar cerca de uma hora por um ônibus lotado...

vou chegar ao centro da cidade, onde talvez tenha ocorrido um acidente...

vou passar por ruas cheias de lixo, com bêbados e mendigos (as maiores vítimas) - restos de pão e circo oferecidos pelo governo.

o não ganhou

o não ganhou o referendo e eu estou triste....

pra que defender o direito que a ínfima minoria da população tem na prática, em detrimento de uma maioria fudida que vai sofrer na pele as consequências de tão vil decisão?

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BRASIL, Centro-Oeste, GOIANIA, Mulher, Arte e cultura, Cinema e vídeo, literatura
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